Dá para trazer assuntos sérios para os adolescentes?

Eu amo escrever para o público jovem adulto e, com alguns livros, conseguir pegar também o público mais adolescente, entre 11 e 13 anos. No entanto, tenho percebido como existe um certo receio da sociedade em falar de determinados temas com essa faixa etária. É como se fosse um tabu, como se, indiretamente, a sociedade quisesse tratar adolescentes e jovens adultos como crianças.

Em uma das feiras literárias que fiz eu estava com A Escritora em Crise, meu último lançamento que, pelas questões emocionais abordadas, é recomendado para +15 anos. Atendi muitos alunos que vieram com a escola e, por ter capa ilustrada, o livro chama bastante a atenção desse público.

Lembro que em um momento parou um grupo de meninas de 13 anos. Eu falei: “bom, vou apresentar o outro livro (Paradoxo do Tempo, que pode ser lido por +11 anos)”. E foi engraçado porque quando eu disse “Esse ainda não dá para você” a própria menina virou e disse “moça, eu já leio Colleen Hoover”. Aí eu mesma fiquei: poxa, para quem lê a Colleen, meu livro é fichinha!

E esse não foi o único caso que encontrei de meninas com menos de 14 anos lendo a Colleen Hoover. E aí me questionei, por que tratamos adolescentes como crianças e não respeitamos a maturidade que eles já têm? Qual é o medo de abordar determinados assuntos como depressão, drogas, relacionamento abusivo, suicídio, sexo? E nesse último, nem estou falando de cenas explícitas, como vemos nos romances hot, estou falando do óbvio, que um casal, mesmo jovem adulto, pode vir a ter relações sexuais.

Voltei dessa feira com essa reflexão e comecei a prestar atenção nas séries que assisto. Ultimamente eu tô numa vibe bem leve e tô pegando as séries de classificação livre, ou seja, podem ser vistas até por crianças. Depois de Papás por Encargo, que vemos até um primeiro beijo de uma adolescente de 14 anos (a Califórnia, na segunda temporada), me arrisquei com A casa da Raven.

Para quem não sabe, a série é um rebot de As visões da Raven e agora conta a vida dos filhos de Raven Baxter: Booker e Nia, sendo que o primeiro herdou suas visões. A série segue a mesma linha cômica, mas, conforme Booker e Nia foram crescendo, outros temas foram abordados.

Um episódio que me chamou muito a atenção falou sobre o POD entre os adolescentes, o tal do cigarro eletrônico que tem crescido muito o uso nessa faixa etária a partir dos 13 anos. Nesse episódio Booker quer se enturmar com os garotos populares do 9 ano e descobre que eles fumam POD escondido. Ele se recusa a fumar e ainda tenta alertar os colegas sobre os riscos, mas acaba sendo suspenso quando um professor o pega segurando o cigarro eletrônico.

Em nenhum momento do episódio vemos um adolescente fumando efetivamente. Eles apenas seguram o tal do POD, citam os aromas adocicados que chamam a atenção dos adolescentes e em apenas 21 minutos (média de duração do episódio) temos uma baita lição sobre os riscos do cigarro eletrônico e o famoso “mostra-me com quem andas, te direi quem és”.

Eu, particularmente, achei fantástico. Provou a minha teoria de que podemos, sim, trazer assuntos sérios para os adolescentes. Ah, e vale comentar que a mesma série também traz um episódio falando sobre masculinidade tóxica, sobre como a sociedade impõe que homens só devem agir do jeito X e Booker tem um baita aprendizado em sua própria casa.

Ali, como é uma série de classificação livre, assistida também por crianças, precisou ser bem uma “pincelada”, porém, se a classificação é +12 ou +14, não vejo motivo para uma abordagem mais direta e séria.

Dá para trazer assuntos sérios para adolescentes e jovens adultos. Aliás, não só dá como deveríamos fazer isso para prepará-los para lidar com o mundo e suas adversidades. Até mesmo a prestar atenção nas próprias amizades e relacionamentos!

2 respostas para “Dá para trazer assuntos sérios para os adolescentes?”.

  1. Concordo com você, podemos sim trazer temas mais profundos para os adolescentes, eles já estão sendo bombardeados por eles mas de forma negativa então por quê nós, autores, não podemos trazer da forma positiva? Com o intuito de agregar algo na vida deles?

    Por sinal, eu amo As visões de Raven e também estou assistindo a nova série e preciso dizer, tem episódios que até eu tenho que parar e refletir porque são extremamente reflexivos.

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    1. Avatar de Stephanie Caroline
      Stephanie Caroline

      Simm! E olha que A Casa da Raven é classificação livre, mas mesmo com aquele ar cômico eles conseguiram trazer muitas reflexões!

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